aberta ao mundo

Ando pela vida como se abertos estivessem todos os caminhos do mundo. (Mário Quintana)

10.1.05

O amor em si

É algo comum em mim a inconstância, o embate de idéias e a mudança, o paradoxo, o contraditório... Tenho uma tendência incrível de morder a língua. Juro com os pés juntos que jamais farei isso e, segundos depois, me pego fazendo justamente o que prometera a todos não fazer. Dentro de mim, desejos e juízo, emocional e racional vivem um conflito constante, choques permanentes. Minhas emoções são um caldeirão em ebulição. Se hoje eu adoro, amanhã eu posso detestar. Se hoje estou feliz, amanhã algo deve me colocar para baixo. Embora seja algo realmente raro amigos e conhecidos me verem de mau-humor ou triste, meus momentos de TPM são maçantes. Enfim, sempre fui este conflito ambulante, esta pessoa paradoxal, este choque entre tese e antítese numa síntese nômade.

Nestes últimos dias não tem sido diferente. Felicidade e tristeza, amor e ódio, surpresa e decepção. Tudo ao mesmo tempo acontecendo em minha vida. E é para relatar os fatos desencadeadores de todos estes sentimentos que escrevo este post. Aviso aos caros amigos leitores que será um texto longo. Quem tiver preguiça ou estiver sem tempo, melhor parar por aqui.

A felicidade é algo que consigo encontrar em pequenas coisas cotidianas, em detalhes do meu mundinho. Mas também sei aproveitá-la através dos outros. Não que eu seja um ser humano altruísta e humilde ao ponto de abrir mão da minha própria felicidade pela dos meus semelhantes, já disse o quão egoísta e birrenta eu sou no último post. O que ocorre é que consigo que reflita em mim a alegria dos outros. Sou o tipo de pessoa que se comove (ou se descompensa, como diria um amigo) com transbordamento de felicidade. Próximo sábado será o casamento de um casal de amigos para lá de especiais. Amigos de colégio, do saudoso CLF. Serei madrinha junto com outros amigos de turma... Isso tudo é motivo de grande felicidade para mim! Sim, passei da fase das festas de quinze anos e dos churrascos comemorativos pelo sucesso no vestibular. Sim, eu sei que não sou mais uma garotinha. Sim, a vida adulta está chegando com tudo e os meus amigos começam a se casar! Sim, eu sei que estou solteira ainda e longe de encontrar meu príncipe, mas vamos voltar ao motivo da minha felicidade?!?! Falcão e Luana se casam no próximo sábado e eu, telespectadora do desenrolar do namoro deles, dou saltos de felicidade e desejo toda a sorte do mundo e saúde para o filhinho que chega!

Porém, enquanto Falcão e Luana iniciam uma nova fase na vida deles e me enchem de alegria, tenho um grandioso motivo para estar triste. Quando meu mundo desabou e o céu se tornou turvo, pude me amparar em somente duas pessoas. Dois amigos que se mostraram para além dos clichês que o momento exigia, dois amigos que foram mais que isso, mais que qualquer coisa. Duas pessoas que, cada um a seu modo, me ensinaram a viver novamente, a ser eu novamente e a me amar novamente. Sei que o tempo nem a distância são capazes de acabar com os laços que foram criados entre nós. Após a ida dela para Inglaterra, restou-me somente ele. Um cara nota mil, amigo para todas as horas; alguém em quem posso confiar sempre e para qualquer coisa; uma pessoa que entende pelo meu tom de voz o que se passa no meu coração; um amigo que sabe pelo meu olhar tudo que me afligiu durante o dia; um ser humano que, basta pensar o quanto sua companhia seria boa no momento, me liga chamando para sair; uma amizade metafísica, para além da vã compreensão humana. Mas, como se não bastasse a ausência dela, que também é tudo isso e muito mais, ele vai embora agora, morar na França. Voltarão ambos na mesma época, mas o período distante deles vai ser por demais dolorido.

Despedir-me e ficar aqui sem estas duas pessoas parece-me um martírio enorme. Mas, só assim, descobri que existem muitos outros amigos que fazem questão de estar comigo e preencher estes espaços vazios na minha vida. Pessoas realmente especiais e que me consideram demais. Nada mais prazeroso do que ouvir estes novos amigos dizerem o quanto se importam comigo e o quanto lhes sou cara, que este período que se inicia será de grande realizações para mim, de possibilidade de conhecer muito mais gente (outro descompensamento)... Depois de passar anos da minha vida ouvindo terceiros afirmarem que sou difícil de lidar e antipática, a conquista de tantas amizades e o carinho que eles me devotam são mais que razões para a felicidade voltar a reinar. Pedro e Renata Pinho, adoro vocês também, embora nem sempre deixe isso claro!

Surpresa melhor que se descobrir amado e querido por aqueles que consideramos, é perceber, depois de tanto tempo, alguém conquistando espaços, abrindo caminhos, sem esforço, quase sem querer. Sem nem ter consciência, vai chegando de mansinho, despertando a curiosidade, deixando um gostinho de quero mais após cada encontro... Alguém que afirma se entregar sem grandes esforços e pede em troca somente felicidade; alguém que se dispõe a correr o mundo, ver o sol nascer na praia, molhar os pés no mar e encher-me de carinhos e massagem. Espero apenas que o vento continue soprando a meu favor...

E mesmo com tantas surpresa agradáveis, a decepção sempre tem seu lugar. Enquanto novos amigos me surpreendem, velhas figuras desta vida me derrubam e magoam. Acho até melhor não discorrer sobre isso, mas queria apenas deixar expresso que todos somos responsáveis por aqueles que cativamos, como já diria o pequeno príncipe, mas não podemos esperar demais das pessoas, às vezes, elas simplesmente não sabem retribuir o sentimento que devotamos.

Enfim, chega de melancolia, porque é muito melhor ser alegre que ser triste e o vento já começa a soprar de novo me apresentando alternativas atraentes. Para terminar, nem sei se vocês perceberam, mas este post inteiro fala de amor. Não apenas do amor romântico, mas do amor em si. Termino com uma frase que ouvi este final de semana: “QUEM DE DENTRO DE SI NÃO SAI, NÂO VAI NUNCA AMAR NINGUÉM”.

PS: Continuo a série "Querido diário virtual"!